O poeta *

by zlupus30

Quantos somos, não sei… Somos um, talvez dois; três, talvez quatro; cinco, talvez nada

[…]

Viemos de longe – trazemos em nós o orgulho do anjo rebelado

Do que criou e fez nascer o fogo da ilimitada e altíssima misericórdia

Trazemos em nós o orgulho de sermos úlceras no eterno corpo de Jó

E não púrpura e ouro no corpo efêmero do Faraó.

[…]

Nascemos da fonte e dentro das eras vagamos como sementes invisíveis o coração dos mundos e dos homens

Deixamos atrás de nós o espaço como a memória latente da nossa vida anterior

Porque o espaço é o tempo morto – e o espaço é a memória do poeta

[…]

Descemos longamente o espelho contemplativo das águas dos rios do Éden

E vimos, entre os animais, o homem possuir doidamente a fêmea sobre a relva

[…]

Quantos somos, não sei… Somos um, talvez dois; três, talvez quatro; cinco, talvez nada

Talvez a multiplicação de cinco em cinco mil e cujos restos encheriam doze Terras

Quantos, não sei… Somos a constelação perdida que caminha largando estrelas

Somos a estrela perdida que caminha desfeita em luz.

* Vinicius de Moraes. In. ‘Antologia poética’. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

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