Alumbres Poéticos

Poesia&Prosa

Month: February, 2014

Antes que o tempo feche

Mariel Fernandes

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Não espero a esperança, nada peço a ela. Apenas me desfaço, me despeço e amanheço o que for possível. Lanço luzes nas manhãs rotineiras, falo alto para quietudes acomodadas, desalojo processos, destranco ruas, liberto risos, entardeço, aqueço jardins de inverno. Há quem se incomode e lance aqueles olhares afetados. Foram tantos vida à fora que me habituei aos rituais de expulsão dos clubes dos quais nunca fiz parte. Sou da tarde, da pipa, da revista, da mão dada, tenho o corpo fechado pela risada, habitado por uma alma enluarada, meu tempo é o sempre. Nem mais, nem menos, comparações são pobres, rasas, tristes. Ah, porque o PT. Ah, porque a Xuxa, ah a imprensa golpista. Ah, vai ter copa. Ah, não vai ter. Ah, o BBB. Ah, aumentou meu número de seguidores. Ah, diminuiu o de expectadores. Ah, não tem mais jeito. Ah, essa é a única forma. Ah, homem…

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Im((par))

Im((par)).

Cão sem dono

Passeava na rua onde moro,

vi um cão sem dono

roendo um velho osso.

As moscas o acariciavam,

algumas pessoas sequer olhavam.

Foi neste momento

que meditei um pouco:

A vida como cão de rua,

com o tempo vergou

meus ossos:

nela tive prazeres,

nela tive desgostos.

Na vida, às vezes, trataram-me

feito cão sem dono,

fui jogado às traças,

enxotado das ‘praças’,

perdi dias de sono.

Como cão sem dono,

fui expulso aqui e ali,

até os parentes

me chamaram de “problema” –

não queriam

ouvir meus dilemas.

Mas a vida não foi

de todo injusta,

encheu-me de perdão:

coisa aprendida

por qualquer puta,

coisa aprendida

por qualquer cão.

Trema

Aguir sem trema

é um problema.

Nem mesmo o mais caro unguento

perfuma a sentença.

Tranquilo não fico sem o uso

dos dois pontinhos.

Perco a eloquência!

Daí, muitas consequências

roubam minha paciência.

Enquanto escrevo,

visito D.ª Reforma Ortográfica

em seu novo solar.

Perco o sossego!

Sem trema, fico destremado.

No verso do poema, enleado.

Mesmo assim, firmo a caneta

e sigo a sequência.

Sem o sobranceiro

e amigo trema

meu texto curte duras penas.

Sem o trema, sofro um sequestro:

levam-me os sons do poema.

Se eu num aguento,

imagine o fonema!?

O trema perdeu o emprego,

foi destronado.

É mais um desempregado.

Coitado…

Desde então, meu texto

ficou esfaimado.

E agora, que poeta sou?

Um bilíngue desvairado?

Não!

Um delinquente destremado.

Corpo mudo

Molho de chaves, objetos digitais,

cartões, imagens, telefones,

veículos, emails e jornais:

é o lufa-lufa falante dos dias atuais.

Neste charivari, leio muitas frases,

poucas delas são normais.

Silenciei. Emudeci.

Minhas vozes secretas

não são verbais.

Borbulho em despudorados desejos.

Silencio-me em limites e medos.

Entrevejo um corpo nu

na amálgama das redes sociais.

Zapeio na Internet,

desejo as bandidagens

e o barulho das orgias impublicáveis.

Anseios banais? Não!

Reflexo de minhas confissões carnais.

Que faço eu, corpo mudo,

nos sistemas informacionais?

Abuso dos signos virtuais?

Uno-me às imagens digitais?

Ou, entrego-me

aos mutismos corporais?

Obrigado Vida

Obrigado Vida,

por existir a literatura;

por existir a poesia e a prosa;

por existir a filosofia,

a ciência e a teologia;

por existir a escrita e os escritores;

por existir os livros e os leitores;

por existir as bibliotecas

convencionais, físicas e virtuais;

por existir o processo educativo;

por existir a cultura, pois sem ela,

eu não seria mais que um bárbaro:

selvagem, incivil…

E, sobretudo, obrigado Vida,

por existir seres humanos assim:

amantes, pois amam marcar

este mundo, registrando

seus pensamentos

por meio do sinal divino da escrita.

Aurora pernambucana

Lá longe canta a ave,

não é o distinto canto do pintassilgo,

é o despertante canto do galo vizinho.

Ouço roncos e palavras matinais,

não são meros signos,

são palavras costumeiras

e sons guturais:

um é palavrório matutino – bom dia – ,

o outro, barulho de feliz dorminhoco.

No íntimo do lar, sons eu ouço:

é um plic plic vindo do telhado.

Um som nada galhardo:

um ruído que cresce, cresce, cresce…

Não são lagartixas, nem gatos.

Será isso uma prece?

Sim! É a prece das águas matinais

que batizam a aurora pernambucana.

Águas de Julho regam a vida

que correm nos verdes canaviais!

Águas de Julho molham

a vida dos conterrâneos!

Águas de Julho crismam

os dias de inverno,

irrigam os sapés nos outeiros

e inundam os matagais!

Águas de Julho saciam

a sede dos calangos,

revigoram o clima tropicano,

num autêntico

alvorecer pernambucano!

Sem respostas

Não olhes pra mim

com esta interrogação

em tua íris.

Não me perguntes quem sou,

de onde vim, pra onde vou,

nem muito menos,

se tenho ações na bol$a valore$.

Não espere ouvir respostas prontas

dos meus lábios,

pois no mundo

de alaridos-informativos,

habituei-me ao silêncio.

Viver procurando respostas

não é minha prioridade!

Se as respostas me privarem

do pensar, do sentir, do viver,

façam a gentileza de me deixarem…

Solitário, sem respostas,

no silêncio da liberdade,

questionando, indagando sem exigir

respostas imediatas.

Eis o que supre minha necessidade:

o silêncio pacífico

que se opõe

ao barulho da belicosidade.

Volto já *

Coração fechado pra balanço.

Inoperante.

Mesmo com saldo negativo,

ele amanhã abre de novo

e segue adiante.

* Poema de Flora Figueiredo. In. “Chão de Vento: poesias”. São Paulo, Geração Editorial 2011. p. 31.

Enxerido

Embaído no vai e vem da vida

construo minha sina.

Dizem que sou amostrado desde criança,

mas a verdade é:

não tolero parvoíces, nem a mão que,

no anonimato, espanca.

Às vezes sou enxerido,

às vezes sou carranca.

Prezo a honestidade

do coração que se derrama na verdade.

Também tenho amigos, bem escondidos,

num nordestino coração.

De vez em quando sorrio,

arengo com o destino

e, com toda a liberdade,

desdenho da solidão.